quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Da morte.

É a primeira vez que escrevo sobre isto; já conversei com algumas pessoas sobre este assunto mas nunca consegui ir mais além do que o óbvio e, claro, vou repetir-me.
Nunca soube fazer o luto e, honestamente, há muito que desisti de o fazer: vive-se bem com uma ferida ligeirissimamente cicatrizada que, de quando em vez, sentimos (e não convém mexer muito, sob pena de a crosta se soltar e voltar o sangue e a dor).
Um acidente estúpido na escola levou-nos a minha irmã Sofia, quando eu tinha acabado de fazer 14 anos e ela estava a fazer os 13. Dos oito éramos as mais próximas de idade e toda a minha infância e pré-adolescência foi vivida ao seu lado. Senti sempre que éramos gémeas de espírito apesar de termos personalidades completamente distintas. Contava a minha avó que até durante a noite nos apanhou, sonâmbulas, em conversas que faziam sentido :-)
Há muitas formas de reagir à morte de quem amamos e a minha foi, no próprio dia da morte, ir para a escola, participar activamente em todas as aulas, ir para casa de umas amigas terminar um trabalho de grupo; enfim, seguir a rotina de todos os dias, sem uma lágrima, e com vontade de bater em quem me tentava dar os sentidos pêsames ou me dizia que tinha que ser forte para ajudar os meus pais. São palavras que não me faziam, nem fazem ainda, qualquer sentido e que, sobretudo, não me confortavam. E assim foram todos os dias que se seguiram.
Sei que a maior parte das pessoas não está preparada para esta forma de reagir. Olhavam-me incrédulas, algumas creio que me achavam fria e/ou insensível, outras não sabiam o que dizer ou fazer.
Das dezenas e dezenas (não sei se exagero se disser centenas) de pessoas com quem me cruzei no dia da morte e do funeral dela recordo apenas três que ajudaram a sentir-me minimamente aconchegada: uma fez-me um lanche especial, outra sentou-se ao meu lado no fim do dia a ver fotografias, a terceira deu-me, simples e meigamente, a mão.
*
Hoje um pai e uma mãe que trabalham comigo perderam repentinamente o seu único filho, de vinte e seis anos.
Que todos nós saibamos ampará-los neste momento.

3 comentário/s:

Vera disse...

Mau. Muito mau mesmo. Perder um Filho deve ser uma dor que não quero nem imaginar sentir. Não sei o que me aconteceria...este ano, em Março presenciei uma dor dessas. Foi muito duro.
Um beijo

JB disse...

Para quem acredita e não os conhece, resta rezar por quem fica e desejar o discernimento do luto bem feito.

Luísa disse...

Palavras, nestas situações, também sempre fizeram pouco sentido para mim, Fugi. E o teatro do sofrimento sempre me aterrou.